sábado, 5 de maio de 2012

Vaticínios: O menino bonito



Às oito horas nasceu. Quase não chorou. «É o mais bonito», diziam as enfermeiras e bailavam por entre o incorpóreo das paredes e insistiam com os outros, como ele era bonito: «este também é, mas aquele...»; e enchiam-se de orgulho e pensavam na inveja de não serem, de não existirem.
Nunca gostei do olhar dele, enchia-me de força, de formigueiros e a sua cabeça era enorme. Mas o resto do corpo acabou por crescer, o olhar também, e os medos, os anseios por aquele ser esconderam-se. Nem os senti diluir: o afecto, o carinho, o amor, o sentimento romperam por todo o lado onde era possível romper, por onde não era, também. E ficaram. E eu amei aquele ser. Amei-o tanto que me esqueci de ter medo. E ensinei-lhe coisas, por vezes, sem conta. Assim se passaram tempos. Um dia, porém, morri.

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