sexta-feira, 10 de maio de 2013
Da vida
Da vida de outrora não resta nada, apenas o pó. O pó nos livros, nos quadros, nas estantes. O pó em mim e em ti, carnificina. Como foste minha em tempos fúnebres, na época dos estímulos, do sangue e da alegria. A pira fúnebre arde em ti e em mim, mas não inflama sem o nós, que de tão atroz, dá até uma pena que não é pequena, uma pena penosa para quem a carrega, uma rosa que se esfrega no rosto do caixão, de quem já partiu e foi engolido pelo chão. Sete palmos debaixo da terra e toda a ilusão ilustre da lama. Chove, e tu precisas de coragem. O chapéu-de-chuva é preto e a gravata sufoca a suposta inglória razão. Chove a potes, chovem potes e magotes, e caixas de pedras mortas de ti. Estão mortos mas não estão podres. Estão bem acondicionados nas caixas. Pernas e braços, fígados e baços, olhos de vida escassos. E eu abraço-te morta e beijo-te torta e a tua carne só a mim me conforta. O meu caixão fica a teu lado: torna tudo mais fácil e mais difícil tudo o resto: as pessoas, as viagens, o coma insensível e o estojo das faces.
As noites são sempre limpas por cima das nuvens e o voo da fénix lírica leva-me para lá num êxtase transitivo para lugar nenhum. O autocarro das três da manhã está vazio e eu viajo sozinho pela esquizofrenia vazia da estrada da morte. O condenado viaja acorrentado ao assento sem acento. O sustento dos tempos afigura-se negro morte e lava-me o rosto e o resto do que resta. A prisão mutante, transcendendo os corpos do não-lugar, e o rosto são um tiro no escuro, como se as veias fugissem do sangue. É hoje que amo o teu abraço morto, é hoje que te amo e cresço em ti. És a morte e toda a vida, uma futura, contingente e contida, sem luz e perdida. És muito menos do que aquilo que podias ser, és menos de metade da soma daquilo que poderias oferecer. Multiplicas, somas e acabas em zero. Daí as frases, o pó, o realismo absurdo. Como me mentes o tempo resvalado resvalando para mim. Cais para ti, porque és tu em mim, porque só sou em ti. És o mundo todo universal, o fenómeno de todos os fenómenos nas cordas de um violino lânguido e tácito. A música escorre de todas os cantos e perdes todos os encantos em quaisquer recantos. O negro das luzes ilude-te e pensas-te deusa. Talvez o sejas, talvez o sejas... Ou então não. A Fortuna tem disto. A música pode ter a alegria do ritmo e a tristeza do refrão. No fundo somos todos malucos. "Give me some pills and I'll take it" - Assim como assim, desculpas, desculpas. Mas as culpas são de todos os rostos dos transeuntes inocentes. Indecentes, presentes ou ausentes: são todos culpados.
A pesada tinta reescreve o futuro de todos e não poupa ninguém à condenação. A forca do olhar nos outros, a corda ao pescoço - pré-julgamento sem hipótese de recurso.
O tribunal está vazio, o júri sou eu e o juiz é um espelho.
- com MedFix$Coma
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