segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As letras secas de um homem pouco novo.

estou sentado a escrever-te uma carta de amor. Aquele amor impossível, pois tu não o desejas tanto quanto eu. Oiço um ruído nas minhas costas. Parecem-me passos. O velho soalho que cobre o chão da minha composta biblioteca particular estremece cada vez que a sola atinge sua a superfície. Botas. Um homem grande com certeza. Não olho para ver quem é. O som dos passos pára a dois metros de mim. Um leve calafrio percorre o meu corpo esgotado de tanto sofrimento físico e mental. O homem deve estar nervoso, pois sinto a sua respiração acelerada. Nada me diz. Concentro-me na carta. Naquele momento tudo faz sentido e a carta deixa de fazer sentido. É irreal bater no vácuo. Volto a lembrar-me do homem. "Eu sei que estás aí", digo eu com a voz cansada. "Não te mexas" responde-me o homem com uma voz suave, mas distorcida talvez pela respiração que o afecta. Asma penso eu. Torno-me numa estátua. Uma pistola é apontada a mim. Oiço o gatilho. Digo-lhe que não tenho medo da morte. E não tenho mesmo. Acho que a anseio até. Um leve uivo sai-lhe da boca. Deve ser uma pessoa interessante esta. Interessante, pois é estranho alguém querer a minha companhia. Após um ligeiro momento de silêncio digo "Olá" e pergunto-lhe como está. Acho que é uma boa forma de começar uma conversa. Eu quero conhecer a pessoa que me quer matar. O homem não reage. Fico pensativo. Digo-lhe quem sou e inicio um monólogo bastante interessante onde abordo as ideologias que defendo, as suas contrariedade, ... ele interrompe-me. Algo atarantado e envergonhado pede-me desculpa e com com uma velocidade de um rato foge. Olho para trás. Realmente era alto. 1.90m talvez, mas mais magro do que eu esperava. Os seus cabelos loiros contrastavam com a sua roupa preta. Tinha um chapéu clássico e umas botas vistosas. Sustive o ímpeto de ir atrás dele. Deixa estar velhote. Deve ser só mais um maluco como todos nós. A vida continua, infelizmente, para este que dedicou a sua vida a "não ir por aí".

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